A transição para o novo modelo tributário brasileiro deixou o campo das projeções políticas e chegou à tela do computador de quem fatura as vendas. Em recente participação no podcast CNN Money, Felipe Beraldi, economista da Omie, traçou o horizonte da Reforma Tributária e alertou para uma realidade inegável: o primeiro grande capítulo dessa mudança é estritamente operacional.
As alterações já impactam a emissão de notas fiscais da indústria e do comércio, exigindo atenção redobrada dos gestores. A adaptação antecipada deixa de ser um diferencial competitivo e passa a ser uma exigência para manter a operação faturando.
Empresas e escritórios contábeis que compreendem as novas regras agora ganham previsibilidade e segurança, evitando gargalos no fluxo de caixa decorrentes de falhas sistêmicas.
O primeiro teste prático: preenchimento de IBS e CBS na nota fiscal
A implementação da Reforma Tributária prevê uma fase de testes estruturada para calibrar os sistemas de arrecadação. As empresas do regime regular já precisam incluir informações específicas nas Notas Fiscais Eletrônicas (NF-e).
A alíquota de teste estipulada é de 1%, dividida em 0,1% correspondente ao Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e 0,9% referente à Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS). A cobrança plena da CBS está programada para 2027, culminando na substituição completa do ICMS e do ISS até 2033.
A consequência prática dessa mudança é imediata: o sistema de validação passou a cruzar esses dados de forma instantânea. Empresas que tentarem emitir documentos fiscais sem informar os novos campos terão suas notas rejeitadas automaticamente pelo fisco. Uma nota rejeitada significa mercadoria parada na expedição, serviço sem faturamento e atraso no recebimento.
Para evitar paralisações, a tecnologia atua como a principal linha de defesa do negócio. Sistemas de gestão nativos na nuvem, que possuem um motor fiscal inteligente, atualizam essas regras de validação sem exigir que o empresário decore tabelas de alíquotas. A plataforma da Omie, por exemplo, realiza a parametrização tributária de forma automatizada, garantindo que o documento seja gerado em conformidade com as exigências da Receita Federal e das Secretarias de Fazenda.
Leia também: IVA dual: entenda a diferença entre os impostos CBS e IBS.
O dilema de setembro: Simples Nacional tradicional ou híbrido?
Além da questão operacional na emissão de notas, as empresas optantes pelo Simples Nacional enfrentam uma decisão estratégica profunda. Felipe Beraldi destacou na CNN que esses negócios terão uma nova árvore de decisão com prazo inicial definido para setembro, com possibilidade de retroagir até novembro.
O empresário precisará escolher entre dois caminhos:
- Simples Nacional Tradicional: mantém a sistemática atual de recolhimento unificado.
- Simples Nacional Híbrido: preserva benefícios da folha de pagamento e outros tributos, mas recolhe o IBS e a CBS separadamente, aplicando a alíquota padrão desses novos impostos.
A escolha pelo modelo híbrido está diretamente ligada à competitividade em negociações B2B. Companhias que fazem parte de cadeias produtivas extensas enfrentam clientes finais que avaliam não apenas o preço do produto, mas o custo tributário embutido na operação.
Ao optar pelo Simples Híbrido, a PME consegue transferir créditos tributários integrais para seus clientes. Se um pequeno fabricante de peças plásticas fornece para uma montadora de veículos, a montadora exigirá o aproveitamento máximo dos impostos pagos na cadeia. Sem a geração desse crédito, o pequeno fornecedor corre o risco de perder contratos para concorrentes do regime regular.
Para tomar essa decisão com clareza, a integração entre o gestor e o contador é indispensável. Ter os dados financeiros organizados em um DRE Gerencial confiável permite simular os dois cenários e entender qual formato protege as margens de lucro da empresa.
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O retrato da preparação: alertas do Radar Setorial Omie
A urgência das adequações contrasta com o nível de preparo do mercado. Um levantamento exclusivo realizado pela Omie, mencionado por Beraldi durante o podcast, revelou um cenário de assimetria de informações.
Aproximadamente 50% das pequenas e médias empresas brasileiras estão em estágio inicial de entendimento ou sequer começaram a se preparar para a transição. Do outro lado, 63% dos escritórios de contabilidade ainda não mapearam os impactos específicos nas carteiras de seus clientes.
O Radar Setorial da Omie analisou fluxos financeiros reais correspondentes a cerca de 4% do PIB brasileiro. Dos 76 segmentos econômicos avaliados, 26 encontram-se em elevada exposição à urgência de adaptação:
- Indústria (14 segmentos identificados): o desafio central reside na organização da cadeia de fornecedores e na revisão de contratos de longo prazo, garantindo que o aproveitamento de créditos fiscais seja otimizado.
- Serviços (9 segmentos identificados): o foco principal é a formação de preços e a escolha do enquadramento tributário mais inteligente para absorver o impacto sobre o custo da mão de obra.
A exposição não significa que a reforma será prejudicial a esses setores, mas indica que a inércia administrativa resultará em perda de eficiência e rentabilidade.
Leia também: Setembro de 2026: o prazo crítico do Simples Nacional que mudará seu lucro em 2027.
Perguntas frequentes sobre a transição
Por que as notas fiscais estão sendo rejeitadas na Reforma Tributária?
As notas fiscais eletrônicas de empresas do regime regular estão sendo rejeitadas automaticamente pelos sistemas autorizadores caso não contenham o preenchimento dos novos campos do IBS (0,1%) e da CBS (0,9%). Essa validação rigorosa faz parte da fase de testes da implementação do novo sistema tributário.
O que é o Simples Nacional Híbrido?
O Simples Nacional Híbrido é um regime opcional criado pela Reforma Tributária. Nele, a empresa mantém os benefícios do recolhimento simplificado para a maioria dos impostos, mas retira o IBS e a CBS da guia única, pagando-os separadamente na alíquota padrão. O objetivo é permitir que essas empresas repassem créditos tributários integrais para seus clientes empresariais.
Quais empresas devem optar pelo Simples Híbrido?
A modalidade tende a ser mais vantajosa para empresas de "meio de cadeia": indústrias de base, distribuidores B2B e prestadores de serviço corporativo. Negócios focados exclusivamente no consumidor final (B2C) geralmente encontram mais vantagens em permanecer no Simples Nacional Tradicional.
Leia também: Simples Híbrido e CNPJ Alfanumérico: guia de ação para PMEs.
Reforma Tributária na prática: acompanhe o que muda em cada fase e prepare seu negócio na central da Reforma Tributária da Omie.
A tecnologia como passaporte para o novo cenário fiscal
A Reforma Tributária reconfigura a lógica de precificação, compras e vendas no Brasil. O tempo de adaptação é curto e as regras operacionais já estão ativas. A complexidade dessa transição exige que a empresa tenha seus dados unificados, centralizando faturamento, estoque e contabilidade em um único ambiente.
Sistemas que operam de forma isolada tendem a colapsar frente a mudanças estruturais. Quando o ERP trabalha em sintonia com as regulamentações vigentes, o empresário para de apagar incêndios com notas rejeitadas e passa a investir energia na expansão do próprio negócio. A conformidade se torna um processo invisível, automatizado nos bastidores da operação diária.
O momento exige planejamento baseado em dados concretos. A escolha do regime tributário adequado e a fluidez na emissão de documentos dependem de um sistema de gestão preparado para a nova realidade econômica.
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